Pesquisa foi feita com 1.026 graduandos de 74 universidades públicas e privadas brasileiras; resultados foram publicados em importante revista científica
Um estudo, realizado por integrantes do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), examinou as associações entre o ambiente de aprendizagem, os estressores acadêmicos e a saúde mental de estudantes brasileiros de medicina em diferentes contextos institucionais. Participaram da investigação científica 1.026 alunos do curso de medicina de 74 universidades públicas e privadas.
A pesquisa, recém-publicada no periódico Brazilian Journal of Psychiatry (BJP), revelou que alunos de medicina que ingressaram no Ensino Superior por meio de políticas de ação afirmativa enfrentam vulnerabilidades acumuladas e ambientes de aprendizagem significativamente piores, com mais sintomas de depressão e estresse ao longo de suas trajetórias acadêmicas.
Para chegar às conclusões, os pesquisadores aplicaram diversos questionários e escalas nos participantes. Alguns dos instrumentos avaliaram sintomas mais gerais, como depressão, ansiedade, tristeza, perda de interesse, alterações de sono e cansaço, enquanto outros são específicos sobre a percepção do ambiente de aprendizagem e os fatores de estresse na formação médica, como o Johns Hopkins Learning Environment Scale (JHLES) e o Medical Student Stressor Factor Scale (MSSFS / MSFSS), respectivamente.
As escalas específicas sobre as condições do ambiente de aprendizagem examinaram aspectos como a qualidade das relações com colegas e professores, o apoio acadêmico, inclusão, oportunidades de aprendizado, carga de estudos, pressão por desempenho, dificuldades financeiras e até mesmo as incertezas sobre o futuro profissional.
O estudo foi orientado pelo psiquiatra e pesquisador do CISM, Dr. Rodolfo Furlan Damiano, e contou com a autoria da bolsista de Iniciação Científica (IC), Laura Fernandes Berto, aluna da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). A primeira autora é Clarissa Garcia Custódio, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC).
“A pesquisa demonstrou que estudantes admitidos em universidades públicas por meio de políticas de ação afirmativa enfrentam vulnerabilidades acumuladas. Os dados indicam, portanto, que intervenções de saúde mental devem concentrar-se na redução da percepção do estresse no meio acadêmico e na melhoria dos ambientes de aprendizagem, especialmente em instituições públicas que atendem grupos socialmente desfavorecidos”, afirma Damiano.
As descobertas
Ao avaliar os resultados dos questionários, os pesquisadores identificaram uma diferença de 2,7 pontos na escala que comparou o ambiente de aprendizagem entre os dois grupos. Enquanto os estudantes de universidades públicas pontuaram uma média de 81,9 neste quesito, os universitários de instituições privadas tiveram um dado superior: 84,6.
Em relação aos sintomas de depressão, alunos cotistas pontuaram 14,2, os outros, por sua vez, 12,8 – uma diferença de 1,4 ponto. Já em relação ao estresse acadêmico, o primeiro grupo marcou 134 pontos na escala, enquanto o segundo (alunos não-cotistas) 129,1, ou seja, 4,9 pontos a menos. As três diferenças foram estatisticamente significativas.
“Além disso, o estudo revelou que os estressores acadêmicos estavam significativamente associados tanto aos sintomas depressivos quanto aos de ansiedade. Percebemos que quando há melhor percepção sobre a qualidade do ambiente de aprendizagem, menor é a gravidade dos sintomas depressivos”, destaca o pesquisador.
Do total geral de participantes, mais da metade (53,7%) se enquadrou em perfis de alto risco de vulnerabilidade psicológica, cerca de um terço (32,7%) em sofrimento moderado e uma minoria – de apenas 13,6% – em alto funcionamento, ou seja, com baixos níveis de depressão e ansiedade, menor estresse e boa adaptação ao ambiente acadêmico. “Notamos, ainda, que os alunos de ações afirmativas estavam mais concentrados nos perfis de maior sofrimento psicológico, ou seja, nos grupos de maior vulnerabilidade”, finaliza Damiano.
Artigo
O artigo publicado no Brazilian Journal of Psychiatry contou com a participação de outros pesquisadores do CISM, entre eles o Professor Euripedes Constantino Miguel, coordenador do Centro de Pesquisa, além de Lilian Cristie de Oliveira e Bianca Besteti Fernandes Damiano, que integram, ao lado de Damiano, o projeto “SAVE Study”.
Quer saber mais sobre os achados do estudo? Confira o artigo completo AQUI.
O CISM
O Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) atua com o propósito de avançar e disseminar o conhecimento sobre saúde mental no Brasil a partir de intervenções inovadoras que melhoram o bem-estar das comunidades. É vinculado ao Departamento e ao Instituto de Psiquiatria (IPq), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).
As iniciativas do Centro de Pesquisa são possíveis graças ao apoio de seus financiadores, que incluem a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o Banco Industrial do Brasil (BIB) e o Stavros Niarchos Foundation (SNF) Global Center do Child Mind Institute. Entre as instituições parceiras, estão o Centro Universitários Max Planck (UniMAX Indaiatuba), Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ), Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
5 de agosto de 2026 – Atualizada em 20 de agosto de 2026
Institucional CISM


