O grupo é liderado pelo Professor Arthur Caye, gerente de pesquisa do CISM, que levou e acompanhou os trabalhos de cinco alunos de Iniciação Científica e doutorado
Menos de 10 brasileiros participaram do Annual Meeting da American Academy of Child & Adolescent Psychiatry (AACAP) 2026, e cinco deles integram estudos com participação do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM). Orientados e acompanhados pelo Professor Arthur Caye, gerente de pesquisa do CISM, os alunos de Iniciação Científica João Pedro Costa Cruz e Stephanie Brancher, e os doutorandos Jônatas Magalhães Santos e Igor Duarte apresentaram os projetos de pesquisa que conduzem.
O evento, realizado pela sociedade mais importante do mundo na área da psiquiatria da infância e adolescência, aconteceu na última semana de outubro, em Atlanta, nos Estados Unidos. O encontro reúne milhares de clínicos e pesquisadores a fim de trocar ideias, explorar descobertas científicas, fortalecer a comunidade dedicada ao avanço da saúde mental dos jovens e apresentar ferramentas, tecnologias e oportunidades de carreira.
Líder do Longitudinal Epidemiology and Neurodevelopmental Science Lab (LENS), laboratório de coortes para a psiquiatria do desenvolvimento associado ao CISM, o Professor Arthur encorajou os alunos que atuam no grupo a submeterem seus trabalhos. E deu certo! Quatro projetos foram selecionados para apresentação no Annual Meeting.
“Foi legal a gente ter levado quatro trabalhos vinculados ao doutorado e à Iniciação Científica de cada aluno”, conta o professor. “Fizemos muitas conexões novas, com diferentes grupos partindo em sinergia nas pesquisas. Este congresso é um panorama do que está acontecendo em psiquiatria da infância e adolescência pelo mundo e colocar o Brasil lá, levar a psiquiatria brasileira, é algo extremamente importante, especialmente para os alunos verem o que está acontecendo na ponta do conhecimento”, acrescenta.
Neste ano, o Professor Arthur tornou-se editor do Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry (JAACAP), revista da AACAP e a mais relevante em psiquiatria infantil do planeta. Ele ressalta que a oportunidade de levar os alunos para o encontro contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Os trabalhos dos doutorandos
Um dos pôsteres apresentados foi o da aluna Luana Resende, representada no evento pelo Professor Arthur, seu orientador. O trabalho da jovem pesquisadora investiga o impacto acumulado dos transtornos mentais sobre a saúde e a qualidade de vida ao longo do desenvolvimento, da infância até o início da vida adulta.

O Professor Arthur Caye apresentou o pôster da doutoranda Luana Resende (Foto: Arquivo pessoal)
Já o estudante Jônatas apresentou uma pesquisa centrada no chamado “fator p” (ou fator geral de psicopatologia), um conceito usado para representar uma predisposição geral para o desenvolvimento de diferentes tipos de transtornos mentais. Em vez de olhar cada diagnóstico separadamente, como depressão, ansiedade ou TDAH, o “fator p” tenta medir o que esses problemas têm em comum: uma vulnerabilidade geral a dificuldades de saúde mental. “Isso é especialmente importante na infância e na adolescência, quando os diagnósticos se sobrepõem muito e mudam ao longo do desenvolvimento”, destaca.
Para o jovem, a experiência de apresentar no encontro da AACAP foi muito positiva. “É a primeira vez que fui nesse congresso. É super importante para a divulgação do nosso trabalho, reconhecimento, e até mesmo para poder estabelecer potenciais colaborações”, conta Jônatas. “A gente conseguiu conversar com pesquisadores de outros lugares e discutir nossos resultados, também trocamos alguns e-mails e a partir desses contatos em congressos, frequentemente, surgem colaborações e ideias que podem gerar bons frutos”.

Experiente em congressos internacionais, esta foi a primeira vez que Jônatas esteve no AACAP (Foto: Arquivo pessoal)
O também doutorando Igor apresentou um estudo que investiga como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) se manifesta e evolui ao longo da vida, acompanhando mudanças nos sintomas e no diagnóstico. “Nosso objetivo é compreender melhor os diferentes caminhos que o transtorno pode seguir ao longo do desenvolvimento. Enquanto algumas pessoas apresentam remissão dos sintomas, outras continuam apresentando manifestações do transtorno, e há também aquelas em que os sintomas oscilam ao longo do tempo. A ideia é aprofundar nosso entendimento sobre essa heterogeneidade e sobre os diferentes padrões de evolução do TDAH ao longo da vida”, explica.
Igor diz ter ficado muito feliz quando soube que o trabalho dele havia sido aprovado para o encontro. “Participar do evento foi uma experiência muito enriquecedora, especialmente pela oportunidade de conhecer pesquisadores que são referência na área e trocar ideias com outros jovens pesquisadores. Foi muito bom poder compartilhar um pouco do nosso trabalho e conhecer o que outros grupos estão desenvolvendo”, destaca.

Igor é psicólogo e aluno de doutorado do CISM (Foto: Arquivo pessoal)
Os trabalhos dos alunos de IC
João Pedro e Stephanie, alunos de Iniciação Científica, levaram para o evento um trabalho sobre TDAH e comorbidades. O objetivo do estudo é entender se as outras condições que aparecem junto com o transtorno, como ansiedade, depressão e problema de comportamento, são fixas da pessoa ou se “sobem” e “descem” conforme o TDAH muda.
“Acompanhamos os mesmos jovens ao longo do tempo em duas coortes, uma brasileira e uma americana, e comparamos eles mesmos em momentos com e sem TDAH. Boa parte da comorbidade só aparece quando o TDAH está presente, então, quando o TDAH melhora ou volta, vale reavaliar o resto também”, explica o estudante de Medicina.
Sobre a experiência de ter participado do Annual Meeting, João Pedro destaca as trocas de ideias com os pesquisadores. “Na apresentação do pôster, a gente não ficou um segundo sem conversar com alguém, foi muita troca e saímos com vários insights para o projeto”, comenta. “Teve também vários eventos de conexão entre estudantes de medicina e psiquiatras americanos, e conhecemos vários estudantes de medicina de lá, muito legal mesmo porque o sistema de graduação é bem diferente”, completa o estudante.

João Pedro e Stephanie são alunos de Medicina da Faculdade de Medicina da USP (Foto: Arquivo pessoal)
Stephanie detalha que, na pesquisa, foi notado que o pico da carga de comorbidade acompanha os de TDAH na vida de um mesmo indivíduo. “Isso é particularmente importante no tratamento e condução clínica do TDAH de início tardio, aquele que aparece no final da adolescência e vida adulta”, explica. “Atualmente, tem-se considerado que os sintomas do TDAH de início tardio seriam uma manifestação de outras comorbidades psiquiátricas, como por exemplo depressão e ansiedade, e nosso estudo contraria justamente isso, pois vimos que a carga de comorbidade aumenta junto com os sintomas de TDAH em todos os períodos da vida”, detalha a também estudante de Medicina.
Para Stephanie, a oportunidade do evento foi muito positiva para a sua formação como médica. “Poder ver profissionais de todo o mundo apresentarem suas pesquisas para a comunidade médica é definitivamente inspirador e me fez querer fazer parte da esfera acadêmica da medicina no meu futuro profissional”, enfatiza a jovem. “É muito satisfatório participar de um projeto e ver esse reconhecimento por parte de outros profissionais, conversamos com vários que demonstraram interesse no nosso tópico e afirmaram ser algo de relevância clínica e prática nos seus atendimentos”, acrescenta sobre as trocas de ideias.
Os dados
Os quatro trabalhos estão inseridos no contexto do laboratório LENS, que estuda como as condições de saúde mental surgem, persistem e remitem, e como identificar quem está em risco antes que os transtornos se instalem. São adotadas seis linhas de trabalho com um mesmo princípio de desenho: as mesmas pessoas, medidas repetidas vezes ao longo do tempo.
As pesquisas do laboratório utilizam dados de cinco coortes populacionais acompanhadas por anos: a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC), que é ligada ao CISM; a 2004 Pelotas Birth Cohort; ABCD Study; IDEA‑RiSCo; e Global Burden of Disease – saiba mais sobre o projeto e as coortes neste link.
5 de novembro 2026
Institucional CISM