As equipes que realizarão as coletas passaram por uma semana de treinamento; a tecnologia medirá dados comportamentais, fisiológicos, cognitivos e neurobiológicos de crianças e jovens da Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC)
Acaba de chegar ao Brasil o Multimodal Brain/Body Imaging Laboratory, conhecido como MoBILab, um supercomputador capaz de integrar, de forma sincronizada, medidas encefalográficas, rastreamento ocular e sinais fisiológicos em um único ambiente. O equipamento foi trazido ao país graças a uma parceria do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) com o Child Mind Institute (CMI) e é fruto de um investimento de R$ 1,5 milhão vindos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Stavros Niarchos Foundation (SNF) Global Center do CMI.
A plataforma inédita será utilizada em pesquisas sobre o neurodesenvolvimento, possibilitando o avanço do conhecimento científico sobre o funcionamento do cérebro e o surgimento dos transtornos mentais. A plataforma, trazida ao país de forma pioneira pelo CISM e CMI, coloca o Brasil como o primeiro, e um dos únicos países ao lado da África do Sul, fora do eixo de nações de alta renda, a receber essa tecnologia de forma estruturada.
Os supercomputadores funcionarão no Complexo do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), na capital paulista, e no Centro de Pesquisa Clínica (CPC) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), instituição parceira do CISM.
Os cientistas do CISM aplicarão a tecnologia em crianças e jovens participantes da Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais – Brazilian High Risk Cohort (BHRC), um dos maiores estudos do mundo sobre a formação do cérebro. Ligado ao CISM, o projeto também recebe o nome de “Conexão Mentes do Futuro”.
A Coorte Brasileira acompanha, há mais de uma década e meia, 2.500 adolescentes nas cidades de São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS) em um longo estudo sobre as origens genéticas e ambientais dos transtornos mentais, e pauta estudos no mundo inteiro. O diferencial estratégico da implementação do MoBILab no projeto é a criação de uma ponte intergeracional inédita na ciência nacional. Atualmente, os pesquisadores da Coorte vêm acompanhando três gerações: os participantes do estudo, seus pais e, agora, seus filhos.

Treinamento em São Paulo reúne os profissionais que utilizarão o supercomputador (Foto: Arquivo Pessoal)
“O MoBILab permite que o funcionamento do corpo e do cérebro possa ser investigado durante a realização de tarefas cotidianas que são necessárias para o desenvolvimento motor e acadêmico típico”, explica Laila Souza, gestora de projetos do “Conexão Mentes do Futuro” do CISM. “Essa tecnologia é inédita no Brasil em pesquisas sobre o neurodesenvolvimento e possibilitará o avanço do conhecimento científico sobre o funcionamento do cérebro e o surgimento dos transtornos mentais”.
O data manager André Simioni explica que a ferramenta possibilita a obtenção de dados mais objetivos dos participantes da pesquisa. “Às vezes você avalia uma criança que é mais retraída, ela acaba não relatando tão bem, ou uma criança que quer parecer mais legal para o entrevistador [pesquisador], então nem sempre é muito confiável. Já quando você pega dados mais objetivos, como rastreio ocular e espontaneidade no movimento, é possível obter dados que são mais replicáveis. A nossa expectativa é que isso se traduza em conhecimentos um pouco mais aprofundados em fatores de risco e fatores de proteção”.
Treinamento
No mês passado, as equipes que realizarão as coletas com a plataforma passaram por uma semana de treinamento em São Paulo (SP) e em Porto Alegre (RS). A capacitação, que contou com a participação especial de duas crianças voluntárias, possibilitou que os pesquisadores pudessem aplicar na íntegra o protocolo do MoBILab.
Em São Paulo, o treinamento foi conduzido por Nathalia Esper, que atua com engenheira de software científico no Child Mind Institute, e contou com o apoio de integrantes do CISM – Carina de Giusti, gestora de projetos; Laila Souza, gestora de projetos; Aline Camargo Ramos, gestora científica; André Simioni, data manager; – e de Nicole Burke, que também atua com engenheira de software científico no CMI. Em Porto Alegre, a capacitação foi ministrada por Nathalia, com participação de Laila.
O psiquiatra e pesquisador Pedro Mario Pan, responsável pela área que conduzirá as coletas com o MoBILab, também acompanhou o treinamento em São Paulo.
“Pesquisas sobre o neurodesenvolvimento e as origens dos transtornos mentais possibilitam a antecipação de diagnósticos e a personalização de intervenções precoces. O MobILAB se mostra como um importante ganho para a ciência porque é uma ferramenta que, de forma inovadora, apoiará os cientistas a avançarem em estudos deste tipo”, destaca Carina, psicóloga e coordenadora do “Conexão Mentes do Futuro” em São Paulo.

A equipe que atua em Porto Alegre também passou por uma semana de capacitação (Foto: Arquivo Pessoal)
Como funcionará a tecnologia
O MoBILab permite a coleta de dados de eletroencefalograma, rastreamento ocular, sinais fisiológicos periféricos, movimento corporal e tarefas cognitivas, incorporando estratégias de fenotipagem em ambiente natural por actigrafia e avaliação ecológica momentânea. Isso significa a coleta de informações sobre o comportamento, estado emocional e o funcionamento dos usuários durante o dia a dia, por meio de dispositivos vestíveis (como relógios ou pulseiras) que registram continuamente movimentos corporais.
Esse tipo de coleta permite que o funcionamento do corpo e do cérebro possa ser investigado durante a realização de tarefas cotidianas que são necessárias para o desenvolvimento motor e acadêmico típico. Ainda, a partir de métodos inovadores, permite que esse funcionamento seja avaliado durante a exposição a tecnologias que hoje são muito comuns, como assistir vídeos no YouTube ou interagir com aplicativos – ainda se sabe pouco sobre o efeito dessas tecnologias no funcionamento cerebral em tempo real.
A ferramenta permite rastrear, por exemplo, respiração, movimento, análise de fala, reconhecimento de emoções faciais e aspectos motores e cognitivos. A integração dessas medidas em um ambiente multimodal abre novas possibilidades para compreender o desenvolvimento cerebral e os fatores associados à saúde mental ao longo da vida. A plataforma conta com um capacete de eletroencefalografia (EEG) e eye tracking – óculos que consegue registrar movimentos oculares e direcionamento do olhar. No dia a dia, os participantes do projeto ainda usarão um fitbit – pulseira que monitora sinais fisiológicos.
Durante o protocolo da coleta, que dura cerca de 1 hora e meia, os participantes do projeto de pesquisa são monitorados enquanto realizam algumas tarefas que podem ativar diferentes áreas do cérebro, como desenhar tracejados com ambas as mãos, completar sequências alfabéticas e numéricas e, ainda, assistir a vídeos de animação e conteúdos diversos na tela do computador, bem como reproduzir sons em um microfone.
A plataforma está integrada a um novo núcleo de pesquisa do CISM, voltado ao avanço da saúde mental de crianças, adolescentes e jovens adultos – confira aqui e aqui.

O treinamento foi ministrado por pesquisadoras do Child Mind Institute, parceiro do CISM (Foto: Divulgação/CISM)
20 de julho 2026
Institucional CISM


