Estudo analisou dados de 2.060 crianças e adolescentes acompanhados ao longo de 15 anos; resultados acabam de ser publicados no “The Lancet Regional Health”
Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros identificou os fatores presentes ao longo do desenvolvimento que antecedem as tentativas de suicídio. Sexo feminino e traumas na infância mostraram-se associados aos três desfechos avaliados na pesquisa: incidência, idade de início e número de tentativas. Alguns dos outros fatores apontados foram: tentativa de suicídio por parte do cuidador, transtornos externalizantes, relatos de bullying e de abuso físico, depressão e uso de álcool na gestação.
Os achados da pesquisa acabam de ser publicados no “The Lancet Regional Health – Americas”, um dos periódicos de maior impacto na medicina. O estudo foi realizado com 2.060 indivíduos entre 6 e 14 anos, acompanhados por 15 anos pela Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais – Brazilian High Risk Cohort (BHRC) – um dos estudos mais relevantes do mundo sobre a origem genética e ambiental dos transtornos mentais.
Os pesquisadores examinaram os fatores de risco relacionados a aspectos genético, perinatal, sociodemográfico, familiar, de adversidades, cognitivo e clínico para os desfechos: incidência cumulativa, momento de início e número de tentativas de suicídio. Os cientistas também analisaram o impacto populacional de condições que poderiam ser modificadas.
O estudo foi conduzido pelo psiquiatra Dr. Rodolfo Furlan Damiano, pesquisador do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), e orientado por Giovanni Abrahão Salum, também integrante do CISM. O artigo ainda inclui entre os autores outros pesquisadores do Centro: o coordenador Euripedes Constantino Miguel, o vice-coordenador Luis Augusto Rohde, Pedro Mario Pan, Sintia Belangero, Marcos Leite Santoro e Lucas Toshio Ito, que também integram a Coorte Brasileira usada na pesquisa.
“As tentativas de suicídio na infância e na adolescência são comuns, recorrentes e constituem o mais forte preditor de morte por suicídio. No entanto, seus antecedentes desenvolvimentais permanecem pouco compreendidos, especialmente em países de baixa e média renda”, explica Damiano. “Nosso objetivo com este estudo foi, justamente, identificar os fatores da infância ao início da vida adulta associados à incidência, ao momento de início e ao número de tentativas de suicídio”, acrescenta o pesquisador.
Os achados
Dos 2.060 participantes – sendo 48% do sexo feminino -, 309 (15%) relataram tentativas de suicídio ao longo de 15 anos de acompanhamento, com idade média de início aos 17,8 anos.
“Sexo feminino” e “traumas na infância” apareceram como preditores significativos nos três desfechos avaliados. O primeiro responde por cerca de 3 vezes mais tentativas.
Já “tentativa de suicídio por parte do cuidador” e “transtornos externalizantes” mostraram-se ligados à incidência e ao início mais precoce das tentativas. O segundo refere-se a casos como transtornos de conduta e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), com impulsividade e desregulação.
Em relação à maior frequência de tentativas, os pesquisadores observaram como presentes os fatores de predisposição genética para depressão e uso de álcool na gestação.
Traumas na infância – como relatos de bullying pelas próprias crianças e relatos parentais de abuso físico – foram os componentes de maior peso para as tentativas. “Entre os fatores de trauma na infância, o bullying se mostrou como responsável por 24% do risco. Priorizá-lo em projetos de prevenção faz sentido, visto que ele é frequente e pode ser combatido”, destaca Damiano.
Os achados da pesquisa revelaram também que nos casos de tentativas de suicídio clinicamente mais graves foram significativos a predisposição genética para depressão, traumas na infância e o uso materno de álcool na gestação.
Fatores modificáveis
Além de analisarem os fatores associados às tentativas de suicídio, os cientistas também quantificaram o impacto populacional daquelas condições que poderiam ser evitadas (os chamados “fatores de risco modificáveis”). Nesta análise, apontaram a quantidade de tentativas de suicídio atribuídas à existência desses fatores:
– Tentativa de suicídio do cuidador – impacto de 14,1% no total de tentativas de suicídios;
– Transtornos internalizantes do cuidador – responsáveis por 11,6% das tentativas;
– Altos níveis traumas na infância – 11,5%;
– Transtornos externalizantes – 10,2%.
“Risco não é destino. Nenhum dos fatores condena uma criança a tentar suicídio. É preciso olhar para o que é possível modificar na população.” Damiano ainda destaca outras ações para evitar essas tentativas, como perguntar sobre casos na família e cuidar do núcleo, não apenas do paciente, além de abordar o bullying e a violência como questões de saúde pública, integrando escola e família no plano de prevenção. “Talvez a pergunta não seja quem vai tentar, mas o que podemos mudar antes”.
No CISM, o psiquiatra coordena o projeto “SAVE Study”, que avalia diferentes abordagens para a prevenção de pensamentos e comportamentos suicidas em pacientes de alto risco nas unidades de emergência da cidade de Indaiatuba, no interior de São Paulo.
O artigo
Além de ligados ao CISM, os pesquisadores brasileiros que participaram do estudo possuem vínculos com a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O estudo ainda contou com o apoio de cientistas estrangeiros ligados ao Child Mind Institute, Harvard University, University of Vermont College of Medicine e Yale School of Medicine, nos Estados Unidos; e Dalhousie University e University of Toronto, no Canadá.
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30 de junho 2026
Institucional CISM


